sábado, 13 de junho de 2009

Quando e como não usar uma distribuição unicaudal em estatística


A argentina Celia Lombardi e o norte-americano Stuart Hurlbert publicaram um artigo criticando seriamente o uso da distribuição unicaudal em estudos do comportamento e em ecologia. Os autores identificaram em 1989 e em 2005 vários erros no uso dessa abrodagem estatística dos dados em dois importantes periódicos: Animal Behaviour e Oecologia.

Segundo Siegel*, em sua publicação de 1956, largamente utilizada pelos pesquisadores do comportamento, a distribuição unicaudal deveria ser usada quando: a) sabemos a direção da diferença de uma variável entre duas amostras; b) quando há implícito (ou explícito) o interesse do pesquisador nesse tipo de análise. Os autores chegam a ser irônicos ao afirmarem que quando sabemos a direção da diferença nos colocamos quase como profetas. Inadvertidamente e seguindo os preceitos classicos em estatística, os etólogos usam Siegel como referência e, claro, os seus paradigmas estatísticos.

Os autores (Lombardi e Hurlbert) centram fogo contra esse axioma propagado por Siegel e outros não muito antigos livros textos sobre estatística. Eles argumentam que salvaguardando a importante relevância dos livros na formação e consulta dos pesquisadores, Siegel e aqueles outros autores (por exemplo, Zar) não deixam claro o que são "interesses" do pesquisador. Há sim, o interesse maior dos cientistas em geral em conhecer os dados e suas análises em qualquer direção. Principalmente quando a significância (isto é, rejeitar a hipótese nula) possa ser comprometida em contraposição aos interesses ou hipóteses do pesquisador.

Uma análise errônea levando em conta "unicaudalidade" dos dados pode ter efeitos graves na cadeia de experimentos e hipóteses em que é construída a ciência. Muito dinheiro, tempo e interesses podem ser perdidos nesse sentido. Pode se perder até vidas, quando animais (incluindo humanos) usam determinado procedimento ou substância com base em testes erroneamente aplicados e interpretados.

Lombardi e Hurlbert provam por modelos matemáticos que a maior parte dos estudos de comportamento não podem utilizar uma análise unicaudal. E são peremptórios: não se deve usar a distribuição unicaudal a não ser em casos muito, mas muito especiais.

O artigo vai gerar polêmica. Merece ser lido e relido com muita paciência, especialmente aqueles que possuem uma menor familiaridade com estatística. Aliás, por quase todos nós.

Lombardi, C. M. e Hurlbert, S. H. (2009) Misprescription and misuse of one-tailed tests. Austral Ecology, 34: 447-468.

*Siegel, S. (1956) Nonparametric Statiscs for the Behavioral Sciences. McGraw-Hill, New York.

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