terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Inter-relações entre a posse responsável de animais domésticos e a saúde humana


Gelson Genaro e Maria de Fátima Martins
A questão de como devemos proceder em relação aos animais de companhia ou àqueles utilizados em experimentos é por demais controversa. O tema foi regulamentado com a aprovação da chamada Lei Arouca, de autoria do deputado Sergio Arouca (PPSRJ, falecido em 2003), aprovada pela 2/2/2009. Câmara dos Deputados no dia 20 de maio de 2008, que dispõe sobre a criação e o uso de animais em atividades de ensino, pesquisa e experimentação em todo o Brasil. Em São Paulo, a Lei Estadual nº 12.916, sancionada pelo governador no dia 17 de abril do ano passado, proíbe a prática da eutanásia pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres. Mesmo com essa legislação, observamos que a temática tem se desdobrado sob a atenção de pesquisadores, proprietários, médicos veterinários e outros segmentos da sociedade. Esses segmentos abordam o assunto sob diferentes óticas. Entretanto, as opiniões diversas não necessariamente devem se chocar; na verdade elas se complementam, e essa inter-relação é fundamental. Contudo, normalmente a questão não é tratada de maneira cooperativa. Ao contrário, comumente podem-se observar atitudes antagônicas. Há diversos registros na imprensa, especialmente na internacional, relatando conflitos entre esses segmentos, até mesmo com agressões. Ao criar animais de companhia, a população, de modo geral, não está realmente a par da importância dos cuidados mínimos necessários para com eles. É muito comum observarmos animais (particularmente cães e gatos) circulando livremente por ruas das nossas cidades, havendo até verdadeiros aglomerados de animais abandonados em determinados locais. Também não faltam na imprensa registros de ataques a pessoas ou a outros animais. O abandono, além de se configurar num descuido que caracteriza pouco apreço à vida, pode também levar a um grave problema de saúde pública, fato que comumente é minimizado. O abandono pode acabar propiciando condições para o desenvolvimento de questões mais sérias, como o surgimento de zoonoses – doenças que podem grassar entre nós e os animais sob as mais diversas formas, com enfermidades potencialmente muito graves, como a raiva. É importante destacar que os cuidados com os animais não excluem a atenção às pessoas. Obviamente uma condição não impede a outra. Entretanto, esse argumento é utilizado por aqueles menos avisados que relutam em admitir a relevancia da dedicação de cuidados aos animais. Esses cuidados não compõem um aspecto estético, frívolo, ou um desvio de recursos para um tema menos relevante. As duas abordagens – cuidado com os seres humanos e também com os animais – devem ser praticadas. Com a alteração provocada pelas referidas leis, que atendem a um clamor popular, e também em virtude de uma conscientização mais ampla – ao se evitar, na medida do possível, a eutanásia –, temos uma nova realidade no que concerne à questão da posse responsável de animais, especialmente em relação aos de companhia. As populações desses animais podem crescer significativamente, seja em centros de controle de zoonoses ou mesmo nas nossas ruas, praças etc. Portanto, o esclarecimento da população sobre a importância de atender às necessidades básicas (nutricionais, clínicas, comportamentais etc.) dessas espécies é questão primordial. Devemos abordar esse aspecto de maneira aguda, e cabe à Universidade o importante papel de dedicar especial atenção a pesquisas e trabalhos científicos, além de prestar os esclarecimentos necessários. Todos os segmentos envolvidos devem unir forças e enfrentar a questão da escassez de pesquisas sobre o tema. A população não se dá conta de que um “simples” abandono de uma ninhada, ou mesmo de um único filhote, pode acarretar um gravíssimo problema de saúde pública. Os cidadãos devem ser alertados por meio de palestras para estudantes, artigos de divulgação científica, campanhas de castração e vacinação etc. Em particular os profissionais, acadêmicos e associados de organizações não-governamentais devem unir forças e enfrentar a questão, pois o aumento do número desses indivíduos pode alcançar proporções exacerbadas. As especulações sobre esses números assustam, já que se espera encontrar, em média, um cão para cada sete habitantes e um gato para cada 46. Logo, fica fácil estimar, ainda que grosseiramente, a população desses animais nas grandes cidades. Ou seja, se a questão não for seriamente enfrentada, problemas de saúde pública – graves – podem surgir em questão de tempo, com a possibilidade do desenvolvimento de doenças seriíssimas, atualmente minimizadas de forma perigosa. Os cuidados básicos com os animais devem seguir uma rotina. Além da alimentação, vacinação, controle de ecto e endoparasitas, cuidados médicos gerais e específicos, o proprietário deve estar atento para que esses cuidados sejam seguidos por toda a vida do animal. Esse período pode ser longo, chegando a 20 ou 25 anos. Se, por questões financeiras ou de outra natureza, a pessoa não puder arcar com esses custos, não deve adquirir o animal. Cuidados parciais não são suficientes para a manutenção da sua higidez, e em questão de tempo o animal estará sujeito a uma situação potencialmente grave. Inclusive o proprietário também estará sob a mesma pressão. Para avaliar essa questão, basta lembrar o exemplo da dengue, que ano após ano, apesar dos esforços institucionais e da população, obriga-nos a manter atenção constante. É importante lembrar que o tema da posse responsável de animais domésticos deve ser foco de ampla análise, com a mesma preocupação e conscientização que fizeram o debate sobre a Lei Arouca avançar entre as instituições de pesquisa. É sumamente relevante promover essa discussão no seio da sociedade. Cabe a nós, profissionais da área, alertar os demais segmentos envolvidos. As diferentes visões, sejam elas da Universidade, de órgãos públicos, dos profissionais liberais ou das Ongs, são complementares e não díspares. Todos devem unir esforços, já que vivemos uma nova realidade, e o conceito de saúde pública (humana) passa necessariamente, e de modo relevante, pela questão animal.

Gelson Genaro é orientador pontual no programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e Maria de Fátima Martins é professora daFaculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP em Pirassununga Página 4 de 6 Jornal da USP - Ano XXV nº 856 de 2 a 8 de fevereiro de 2009.

Texto do sócio da SBEt, Prof. Gelson Genaro, que foi publicado no Jornal da USP.

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